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VIDA E OBRA

GIL VICENTE

UM CRÍTICO ATENTO

E MORDAZ

www.prof2000.pt/users/hjco/aleixvic/004.jpg

 Corre o ano de graça de 1502 em Lisboa. É noite de 7 de junho.

Todo o palácio real respira leve apreensão. D.Maria de Castela,

excelsa esposa do rei D.Manuel I, descansa dos trabalhos de

parto do dia anterior, quando deu à luz um menino. (...)

Quem pode se aglomera à entrada do régio aposento e

saúda com olhares sorridentes o mais novo príncipe de

Portugal. Súbito, um burburinho quebra a atmosfera desse

ambiente. É mestre Gil, ourives da Corte, que vem em

vestimentas de vaqueiro e acompanhado de um zagal.

Impaciente, ele pede licença aos que ali estão para se

aproximar da rainha.(...) A rainha soergue-se do leito.

Alguém a informa de que é mestre Gil e que deseja]

homenagear o recém-nascido. Com o consentimento

prévio, o vaqueiro e seu mudo companheiro dirigem-se,

sob olhares pasmados, ao centro da alcova real. Lá,

em vez de uma gentil cortesia, ou mesmo de um

simples boa-noite, uma avalancha de protestos.

Para chegar até ali, o rústico diz ter sido agredido

pela guarda, ter dado um soco em um dos "figurões"

e que, se soubesse dessas todas dificuldades, não

teria vindo. E se viesse não teria entrado. E se entrasse...

É uma representação.(...) O discurso do vaqueiro aos

poucos desdobra-se em tom de louvor ao " excelente príncipe".

E ao fim, com uma irônica referência à truculência da guarda

real, a grande supresa: o rude camponês faz que entrem outros

" porcariços" e " vaqueiros" que trazem consigo mimos ao príncipe

recém-chegado. A aprovação é geral. A tal ponto que D.Leonor

(viúva de D.JoãoII), a mais entusiasmada, pede ao mestre que repita

a apresentação quando dos próximos festejos natalícios. A passagem

anterior mostra, resumidamente, a barulhenta estréia do dramaturgo

Gil Vicente. Essa entrada em cena para representar o Monólogo do

Vaqueiro ou Auto da Visitação, sua primeira peça, é exemplo de

sua personalidade artística bombástica e corrosiva, que prefere o

protesto à cordialidade. Mesmo assim, Gil Vicente foi um sucesso em

sua época.

PARA LEMBRAR

O dramaturgo soube aliar em suas obras o divertimento e o espírito

reformador apoiado no respeito às instituições, além de um alto

padrão estético.

1. O PREFERIDO DOS REIS: Não se sabe exatamente quando ou onde

Gil Vicente nasceu. Os poucos indícios históricos registram seu nascimento

entre 1465 e 1470, possivelmente em Guimarães. Uma cidade rica em artistas

e artesões, onde provavelmente aprendeu o ofício de ourives, que praticou

nas Cortes de D. Manuel I ( 1469 a 1521) e de D. João III (1502 a 1557).

Gil Vicente viveu a maior parte de sua vida em Lisboa, centro comercial

e cultural de Portugal. De origem popular, não se sabe onde adquiriu a

vasta e diferenciada cultura com que marcou sua obra. Todas ou quase

todas as afirmações biográficas a respeito do dramaturgo são suposições.

Graças a isso, costuma-se dividir essa figura histórica em dois:

  • O Gil Vicente ourives ou de atividades semelhantes.
  • E o Gil Vicente poeta, dramaturgo e encarregado da preparação

das festas palacianas.

Há dúvidas inclusive se ambos seriam os mesmos, pois torna difícil juntar

as duas personalidades. No entanto, é o Gil Vicente poeta e dramaturgo

que aqui interessa. Aquele que desenvolveu em Portugal um teatro até

hoje incomparável em sua grandeza.

2. UMA PRODUÇÃO INTENSA E ORIGINAL:A obra de Gil Vicente não

seguiu nenhum padrão determinado. Não há sinal de que conhecesse

o drama grego e não há registro histórico de teatro pré-vicentino em

Portugal. Além de uma rudimentar ação dramática que floreceu na Europa,

durante a Idade Média, o espanhol Juan del Encina(1468 a 1529) foi

quem primeiro compôs peças de caráter pastoril e religioso na Penísula

Ibérica. Gil Vicente é, portanto, o criador do teatro em Portugal.

Texto e assinatura de Gil Vicente

www.aol.klickeducacao.com.br

PARA LEMBRAR: Sua produção inicia-se em 1502, com o

Monólogo do Vaqueiro, ou Auto da Visitação, e termina em 1536,

com Floresta de Enganos, num total de 34 anos de intensa produ-

tividade e 46 peças, sendo uma em castelhano, 16 bilíngües e as

restantes em Lingua Portuguesa.

Esse conjunto foi reunido e editado por seu filho, Luís Vicente, em

1562, no volume entitulado Compilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente.

Um trabalho que infelizmente não teve o rigor necessário, pois apresentou

alterações nos textos e omissão de peças. Ignora-se também a data da

morte de Gil Vicente, sabendo-se apenas que aconteceu entre 1536, ano

em que foi apresentada sua última peça e abril de 1540, data de um documento

no qual aparece a seguinte frase: " Gil Vicente, que Deus perdoe".

Texto extraído do livro Gil Vicente - Auto da Barca do Inferno, nº 14

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- Postado por: Mestra dos Sonhos às 14h13
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